Projeto prevê reajuste de 8,8% no salário mínimo e valor chegará a R$ 788,06



O Projeto de Lei Orçamentária (Ploa) de 2015 encaminhado pelo governo federal ao Congresso ontem prevê um salário mínimo de R$ 788,06 a partir de janeiro. O novo valor, com reajuste de 8,8% representa um aumento de R$ 64,06 sobre os R$ 724 vigentes este ano. Pelas contas da Salto Tendências, o reajuste terá impacto de R$ 19,2 bilhões no Orçamento da União. Calculado com base no avanço do PIB em 2013 (2,5%) e na inflação deste ano (prevista pelo governo em 5%), o novo valor do mínimo deve sofrer ajustes até o fim do ano, como admite a equipe econômica.

O novo valor do mínimo foi criticado por trabalhadores de Belo Horizonte, que destacam os preços de alimentos e outros itens com reajustes muito superiores. “Com esse valor, não dá para alimentar uma família”, reclamou Marília Cristina de Souza, de 36 anos. E ela tem motivos para o pessimismo. Desempregada desde dezembro, ela está grávida de 4 meses e ainda tem três filhos para criar. “Sou pai e mãe na minha casa. Com um salário mínimo não tem jeito de viver. Imagina sustentar crianças com R$ 788,06?”, questiona, indignada.

A mesma indignação tem a atendente Bárbara Gonçalves, de 27. Em 2015, ela começa uma faculdade de moda, em uma instituição particular da capital mineira. Atualmente, a jovem ganha o mínimo e prevê que o seu orçamento vai ficar apertado a partir de janeiro, quando o salário mínimo chegará aos R$ 788,06. “Esse reajuste não ajuda em nada. A faculdade é mais de R$ 1 mil. Pelo menos, não tenho filhos e moro com a minha mãe. Onde trabalho ganho comissões, mas sei que há famílias que necessitam de uma renda maior e, por isso, a correção é pífia”, avalia. 

Para a dona do Bar Calçadão do Churrasco, no Funcionários, na Região Centro-Sul, Sueli Lelis, o aumento será positivo. Com 15 funcionários no bar, ela diz que dois trabalhadores, responsáveis pela faxina do lugar, ganham um salário mínimo. “Não acho que o reajuste traz um impacto negativo para nós. Pelo contrário. Com o aumento, os funcionários ficarão mais incentivados com o trabalho e vão render mais. Ao mesmo tempo, haverá mais dinheiro em circulação no comércio”, observa. 

Otimismo 
O Projeto de Lei Orçamentária entregue ontem pela ministra do Planejamento, Miriam Belchior, ao presidente do Senado Federal, Renan Calheiros (PMDB-AL), tem como um dos parâmetros para 2015 uma taxa de crescimento de 3% para o Produto Interno Bruto (PIB). Essa é a mesma projeção feita pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, para a expansão do PIB neste ano, que já foi cortada várias vezes e hoje está em 1,8%. Enquanto isso, a mediana das expectativas do mercado, de acordo com o último Boletim Focus do Banco Central, é que o PIB deste ano avance apenas 0,7%, e, no próximo ano, 1,2%. 

Já a projeção de inflação do Ploa para 2015 também está fora da realidade. O governo manteve a expectativa para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 5%, enquanto o mercado espera algo em torno de 6% a 6,5%. No documento, a meta de superávit primário (economia para o pagamento dos juros da dívida pública) para o próximo ano foi fixada em 2% do PIB, ou R$ 114,7 bilhões, algo difícil ou até impossível de ser atingida, na avaliação dos especialistas.

Longe do real 
O economista-chefe da Sul América Investimentos, Newton Rosa, acredita que esses números são muito otimistas para um ano de ajuste. “Pelas nossas projeções, esses dados estão bem distantes do que a gente considera real”, afirmou. Ele estima uma expansão de apenas de 0,6% no PIB de 2015, quando o IPCA chegará a 6,3%. “Existe uma inflação reprimida grande por conta dos preços
administrados. E só isso implicaria em uma pressão sobre os preços e que será difícil segurar a inflação abaixo de 6,5% no próximo ano”, afirmou. Pelos cálculos de Rosa, o superavit primário que o governo entregará em 2015 será de 1,8% do PIB. “Para cumprir a meta fixada, de 2%, ele será obrigado a dar uma contrapartida fiscal maior. Não sei como eles vão resolver isso no Orçamento”, explicou.

O professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e especialista em Direito Tributário, Fernando Zilveti, também considera esses parâmetros fora da realidade. Na visão do professor, ao contrário das projeções de Mantega que estima queda na dívida pública líquida, de 33,6% para 32,9% do PIB, e de 57,7% para 56,4% do PIB vão piorar. “O PIB vai apresentar um crescimento menor em 2015, não vai ser possível chegar nesse resultado”, disse. A mesma opinião é compartilhada pelo economista Felipe Salto da consultoria Tendências. Ele estima que a dívida líquida vai atingir 34,8% do PIB. “Isso vai impactar na avaliação das agências de classificação de risco que deverão reavaliar o rating do país”, alertou.

O doutor em economia pela Universidade de Chicago Paulo Rabello de Castro, coordenador do Movimento Brasil Eficiente, considera que os dados apresentados pelos ministros demonstram uma realidade para um governo de oposição. A seu ver, a meta fiscal “está comprometida” por conta da gastança do governo. O economista Samy Dana, professor de Finanças da FGV, também não vê muita saída para o país se não houver contenção de gastos públicos. “Vamos acabar igual à Argentina, segurando os preços administrados a fatores irreais, com fechamento de mercado”, concluiu.
 
Cenário melhor
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ontem que os números da Proposta de Lei Orçamentária (Ploa) estão otimistas porque haverá melhora no cenário internacional no ano que vem. “É lícito prever que, em 2015, a economia internacional estará um pouco melhor que ela esteve em 2014 e em 2013”, disse ele acrescentando que o atual governo vai entregar um país “sólido” e que “consegue enfrentar uma crise internacional porque tem reservas de quase US$ 400 bilhões”. “Temos uma confiança grande do investidor externo. Passamos a ser um dos países que mais recebem Investimento Estrangeiro Direto (IED). Mais de US$ 60 bilhões estão sendo investidos no país. E se isso não é confiança, eu não sei o que é”, afirmou. 

Mantega destacou ainda que o aumento da produção de petróleo pela Petrobras ajudará a equilibrar a balança comercial. “Estamos exportando 2,45 milhões de barris por dia. Essa produção vai crescer e isso está melhorando as contas externas. Vamos chegar a 3 milhões de barris por dia no próximo ano”, disse. “Esse é o cenário que teremos em 2015”, disse ele, que prometeu até chuva no ano que vem. “2015 será melhor em termos de crescimento porque alguns problemas serão superados. Vai chover muito em 2015. Vocês vão até reclamar”, brincou. (RH, CP e BN)
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