Os golpes financeiros que enganaram milhares de investidores


Notas de cinquenta reais

Conheça as fraudes de pirâmides que se tornaram famosas no Brasil e no mundo e saiba o que aprender com elas

Avestruz Master e a criação de aves que não existiam

Fundado em Goiânia em 1998, o grupo Avestruz Master oferecia contratos de compra e venda de avestruzes com compromisso de recompra dos animais. Assim, quem investisse em uma ave com 18 meses de vida, ganharia um retorno de 10% sobre a aplicação até o mês em que a avestruz fosse readquirida pela empresa. O lucro seria assegurado pela suposta exportação da carne. Mas o negócio propriamente dito jamais chegou a ir para frente: em sete anos de operação, nenhuma ave foi abatida. Na teoria, a Avestruz Master teria comercializado mais de 600 mil animais. Na prática, só possuía 38 mil.

Apostando antes na propaganda do que nas aves em si, o grupo conquistou 40.000 investidores no Brasil, 30.000 deles só no estado de Goiás. Para engordar a base da pirâmide, foram gastos 4 milhões de reais em publicidade em 2004 - e apenas 100.000 reais em ração para as avestruzes. Quando a pirâmide ruiu em 2005, a empresa fechou as portas e seus sócios fugiram para o Paraguai. Em 2010, a Justiça Federal condenou os dois filhos e o genro do dono da Avestruz Master a indenizar os investidores em 100 milhões de reais. Jerson Maciel, controlador do grupo, morrera dois anos antes da decisão. Os acusados também receberam penas de 12 a 13 anos de prisão. A execução da indenização, contudo, só irá acontecer quando todos os recursos judiciais tiverem se esgotado. Se executada, ela não será suficiente para cobrir o prejuízo total amargado pelos investidores, estimado em 1 bilhão de reais.

Pirâmide de Pessoas

Armadilha para quem busca lucro rápido

São Paulo – Retornos exorbitantes, livres de risco e em um curto espaço de tempo. Bom demais para ser verdade? Consultores financeiros alertam: a tríade invariavelmente aponta para um esquema de pirâmide, golpe que ganhou popularidade no século passado, mas continua fazendo vítimas pelo mundo afora. “Os mesmos elementos estão sempre presentes: algo que começa do nada, com poucos aderentes, promessa de rentabilidade diferenciada e uma figura central que patrocina o negócio”, afirma o economista Marcos Silvestre, autor do livro “12 meses para enriquecer”. 

É verdade que os primeiros participantes costumam sair no lucro. Isso acontece porque o dinheiro dos que entram na base da pirâmide é usado para remunerar com generosidade os que desejam pular fora. Dessa forma, o negócio - seja um intricado investimento em animais ou uma corrente na internet que promete retornos vultosos a partir de aportes bem modestos - parece de fato funcionar. Envernizada pelo sucesso, a aplicação cai nas graças dos investidores, que não raro convidam amigos e familiares a embarcar na mesma empreitada. Mas a partir do momento que a base deixa de crescer, a pirâmide desmorona. Sem geração sustentável de caixa, a grande maioria dos participantes termina sem qualquer dinheiro no bolso. 

No Brasil, a Comissão de Valores Mobiliários já abriu 24 processos administrativos contra ofertas com características de pirâmides de 2007 até agora. Mas o caminho é longo para quem espera reaver parte do dinheiro aplicado. A reparação do prejuízo é determinada pelo poder judiciário, que pode ou não se apoiar na atuação da CVM (que impõe apenas sanções administrativas) para abrir um novo processo. Melhor mesmo, recomenda Silvestre, é desconfiar de toda e qualquer rentabilidade líquida superior a 1% ao mês que for apresentada como um retorno garantido. Conheça, a seguir, seis esquemas de pirâmides que se tornaram famosos no Brasil e no mundo.

Ponzi e os cupons postais

Em 1920, o ítalo-americano Charles Ponzi (foto) atraiu um sem número de clientes prometendo rentabilidade de 50% em apenas 45 dias. O negócio consistia na compra de cupons postais de outros países, trocados por selos nos EUA a um preço mais caro. Mas as despesas e prazos para conversão da moeda minavam qualquer rentabilidade expressiva. Ainda assim, o boca a boca alimentou o topo da pirâmide e por um bom tempo Ponzi remunerou os investidores antigos com o dinheiro dos que entravam no esquema - não deixando, é claro, de tirar uma boa parte para si próprio. 

Quando o esquema entrou em colapso, descobriu-se que 160 milhões de cupons postais eram necessários para sustentar as margens que seduziam os investidores. Mas só existiam 27.000 no mercado. Condenado a anos de prisão, Ponzi posteriormente mudou-se para o Rio de Janeiro, onde morreu pobre em 1949. Seu nome carimbou o golpe de pirâmide, mundialmente conhecido como esquema de Ponzi.

Engorda de gado nas Fazendas Reunidas Boi Gordo

No mais conhecido caso de pirâmide financeira do Brasil, 30.000 investidores perderam nada menos que 3,9 bilhões de reais. Seduzidos pela oportunidade de embolsar um lucro mínimo de 42% no prazo de um ano e meio, eles aplicaram suas economias nas Fazendas Reunidas Boi Gordo. A empresa chegou ao mercado em 1988, mas só começou a vender os chamados contratos de investimento coletivo (CICs) nos anos 90. A sistema se assentava na engorda de bois e criação de bezerros, mas os lucros repassados eram pagos sobretudo pela entrada de novos investidores no negócio. 

Uma década se passou até que a empresa abrisse seu capital, exigência da CVM para que as atividades continuassem sendo exercidas. Ao longo desse tempo, multiplicaram-se os interessados no esquema. A Boi Gordo investiu inclusive em anúncios apresentados pelo ator Antônio Fagundes nos intervalos da novela “Rei do Gado”. Poucos anos depois a situação mudaria de figura: em 2001 a empresa não tinha mais dinheiro para honrar os resgates solicitados. A falência foi decretada em 2004, mas o processo ainda corre na justiça. Para indenizar os investidores, estuda-se a entrega das propriedades da Boi Gordo, transferindo-as para fundos em nome dos credores. Já o processo criminal instaurado contra o dono da empresa, Paulo Roberto de Andrade, foi cancelado pelo Superior Tribunal de Justiça em dezembro de 2009. Na CVM, a condenação sofrida por ele em 2003 combinou uma multa de mais de 20 milhões e a proibição de exercer o cargo de administrador de companhia aberta por 20 anos.

Madoff e a fraude bilionária em Wall Street

Dos mais altos círculos de Wall Street à sentença de 150 anos de prisão, Bernard Lawrence Madoff (foto) amealhou bilhões com o maior esquema de Ponzi da história. Considerado um dos mais bem sucedidos gerentes de investimento de Nova York, Madoff administrou os recursos de 16.000 vítimas, entre figuras carimbadas do show business, tubarões do mercado financeiro, instituições financeiras e bancos - inclusive brasileiros - em um negócio que funcionou por longos 16 anos. 

O canto da sereia era a proposta de rendimento de 1% ao mês. Com a fama consolidada, novos clientes nunca deixaram de lhe bater à porta. Parte do dinheiro recolhido nunca foi investida. A outra parte servia para remunerar os que solicitavam o resgate. Estima-se que os investidores tenham perdido entre 12 e 20 bilhões de dólares ao longo dos anos. Em 2009, Madoff foi condenado por 11 crimes, entre fraude contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro e perjúrio.

Rentabilidade astronômica em fundo de Madoff mineiro

Acusado de provocar um prejuízo que beira 100 milhões de reais, o mineiro Thales Emmanuelle Maioline montou seu esquema de Ponzi em Belo Horizonte. O produto oferecido - e comprado por 2.000 investidores - era a participação em um Fundo de Investimento Capitalizado (Ficap), que só existia de fato no site da empresa criada por ele, a Firv Consultoria e Administração de Recursos Financeiros.

Como os demais golpes do tipo, o fundo prometia um retorno de 5% ao mês acrescido de um bônus semestral. Mas depois que um investidor solicitou o resgate de 3 milhões de reais em julho de 2010, a pirâmide não conseguiu se manter de pé. Maioline desapareceu por 140 dias, sendo preso em dezembro do ano passado. Seu julgamento começou no dia 22 de junho deste ano e ainda não foi concluído.

Clubes virtuais de sucesso na Agente BR

Outrora corretora de câmbio, a Agente BR passou a ofertar clubes de investimento sem registro na CVM a partir de 2006. Sediada em São Paulo e controlada por Túlio Vinícius Vertullo, a empresa anunciava retorno mínimo de 5% ao mês com a aplicação em clubes de investimento virtuais. Com a exigência de um aporte que partia de 10.000 reais e da apresentação de convite para participar, o investimento ganhou ares de tesouro escondido. Mas a rentabilidade prometida - e provada via home broker da instituição - não passava de uma armação.

Embora a CVM tenha divulgado um alerta ao mercado sobre a irregularidade das operações, a empresa continuou funcionando até janeiro de 2009, quando sofreu intervenção do Banco Central. Estima-se que cerca de 3.000 investidores tenham perdido aproximadamente 100 milhões de reais.

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